A extensometria é um método de experimentação que tem como objetivo medir deformações e, consequentemente, obter as tensões em componentes, estruturas e equipamentos. Isso se dá a partir da instalação de sensores que são fixados na superfície do objeto em estudo, denominados extensômetros (ou strain gauges).
Para a aplicação dessa metodologia, deve-se conhecer a teoria por trás do seu funcionamento. No artigo Princípios básicos da extensometria – Parte 1, foi apresentado como a Lei de Hooke relaciona as deformações de um material com as tensões aplicadas nele, que é a base para os estudos utilizando a extensometria. Nesta segunda parte, conheça mais sobre os extensômetros, os princípios do seu funcionamento e quais são os principais tipos encontrados no mercado.
A estrutura do extensômetro
Os extensômetros são sensores baseados em resistência elétrica, comportando-se como um resistor. Ele é colado ao componente estudado, e quando este é sujeito à deformação em uma determinada direção (com um, dois ou três eixos), é gerada uma diferença de potencial no sensor.
Basicamente, os sensores são compostos por uma grade de material condutor depositada em um composto adesivo isolante. Quando colado a um corpo que está sendo deformado devido a uma aplicação de carga, o extensômetro sofre uma deformação. Assim, as malhas aumentam de tamanho, gerando uma variação na resistência inicial do extensômetro. Por meio da aplicação de uma tensão elétrica constante nos terminais do extensômetro e com a variação da resistência com deformação linear, é possível obter a variação de corrente do sistema fechado. [1]
A grade de metal dos strain gauges é sensível, e a base à qual é conectada adere à peça ou estrutura que se deseja monitorar. O fio sensível tem, em grande parte dos extensômetros comerciais, um diâmetro aproximado de 0,1 mm e é fabricado em ligas metálicas especiais. A grade é embutida dentro de um filme plástico fino ou entre 2 (duas) folhas de papel. Exemplos de extensômetros uniaxial e triaxial são apresentados na Figura 1.

Figura 1: Extensômetro uniaxial (à esquerda) e triaxial ou roseta (à direita) – FONTE: SILVA (2019).
O princípio da condutância elétrica
O funcionamento do extensômetro parte, basicamente, do princípio da condutância elétrica e depende muito da geometria da estrutura analisada. Ele é projetado simplesmente com base no fenômeno de que o comprimento específico de um determinado fio de resistência é diretamente proporcional à resistência do fio, conforme a Equação 1. [3]

Equação 1: Cálculo de resistência elétrica – FONTE: BESTECH (2019).
Onde:
R = resistência do fio;
ρ = resistividade;
A = área da seção transversal do específico fio.
Partindo do princípio de que quando o fio é tracionado a área da sua seção transversal é diminuída, utilizando a Equação 1 obtém-se a Equação 2.

Equação 2: Cálculo da nova resistência – FONTE: BESTECH (2019).
Onde:
R2 = é a nova resistência gerada devido à mudança nas dimensões e também é chamada de resistência deformada;
D= diâmetro do objeto;
∆D = variação no diâmetro do objeto.
A partir da equação da deformação –que pode ser vista aqui– substituindo ∆L pela variação na resistência do extensômetro devido à tensão e L pelo fator de resistência inerente ao extensômetro, tem-se a Equação 3:

Equação 3: Cálculo do Strain – FONTE: BESTECH (2019).
Sendo:
∆R = Variação na resistência do extensômetro devido à deformação;
R = resistência do extensômetro;
K = fator de medição do extensômetro.
Ponte de Wheatstone
De forma geral, percebe-se que um extensômetro funciona de acordo com o princípio básico de um fio condutor de metal simples que tende a ter uma variação em seu comprimento, área da seção transversal e resistência devido a uma determinada tensão aplicada.
Extrapolando esse conceito, todas as configurações de extensômetro são baseadas no conceito de uma ponte de Wheatstone, a qual é uma rede de 4 resistências. De forma simplificada, uma ou mais dessas pernas podem ser elementos sensores ativos. Em suma, uma ponte de Wheatstone é um circuito divisor de tensão, como mostrado na Figura 2, que pode detectar pequenas mudanças na resistência.

Figura 2: Diagrama típico de uma ponte de Wheatstone – FONTE: ANDOLFATO, CAMACHO e BRITO (2004).
Essa ponte é o equivalente elétrico de 2 circuitos paralelos. Neste sentido, RA/RB e RC/RD compõem esses dois circuitos, sendo a tensão medida na saída. A saída de uma ponte de Wheatstone é medida na interface.
Um fenômeno físico, como uma mudança na deformação aplicada a um objeto que está sendo monitorado ou uma mudança de temperatura, altera a resistência dos elementos sensores na ponte de Wheatstone. Sendo assim, a sua configuração é usada para ajudar a medir as pequenas variações na resistência. Esta variação da resistência que os elementos sensores produzem induz uma variação de tensão que, na prática, corresponde a uma mudança física no objeto que está sendo medido/monitorado.
Basicamente, existem três tipos de configurações de extensômetro: ¼ de ponte, ½ ponte e ponte completa. Cada uma dessas configurações é subdividida em vários subtipos. Dois exemplos podem ser visualizados na Figura 3 e 4.

Figura 3: Medição com tração utilizando ¼ de ponte – FONTE: ANDOLFATO, CAMACHO e BRITO (2004).

Figura 4: Medição de flexão utilizando ½ ponte – FONTE: ANDOLFATO, CAMACHO e BRITO (2004).
Tipos de extensômetro
Existem muitos tipos de extensômetros e suas escolhas devem ser feitas de acordo com vários critérios. Tais critérios incluem o nível de deformação, a temperatura em que o monitoramento está sendo realizado, o material do objeto, o ambiente, a geometria, o fabricante, a utilização, entre outros fatores. A literatura e os fabricantes fornecem várias classificações e tipos de extensômetro para utilização. De forma simplificada, na Tabela 1, são apresentados alguns tipos de extensômetros mais comuns que podem ser utilizados para extensometria.

Tabela 1: Tipos de extensômetro – FONTE: ANDOLFATO, CAMACHO e BRITO (2004).
As possibilidades de utilização de extensometria para soluções em integridade estrutural são grandes. Mas é importante destacar que também existem limitações para a utilização dessa ferramenta. Em algumas situações seu uso não é o mais indicado, existindo possibilidades mais adequadas de acordo com a necessidade do estudo. Em determinados casos é recomendável a utilização somente da análise de elementos finitos (FEA). Em outros, a junção de FEM e extensometria.
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FAQ
1. O que é um extensômetro (strain gauge) e como ele é construído?
O extensômetro é um sensor passivo cuja resistência elétrica varia proporcionalmente à deformação mecânica aplicada ao corpo em que está colado. Ele é constituído por uma fina grade de liga metálica especial (com fios de aproximadamente 0,1mm de diâmetro ou folhas corroídas) disposta sobre uma base adesiva isolante de filme plástico ou papel. O sensor é colado diretamente à superfície do componente analisado, acompanhando suas deformações.
2. Qual é a relação física entre a deformação mecânica e a resistência elétrica do sensor?
O funcionamento fundamenta-se na lei da resistência elétrica de um condutor linear:

Onde:
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R: resistência elétrica do fio;
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p: resistividade elétrica do material;
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L: comprimento do condutor;
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A: área da seção transversal.
Quando a peça sofre tração, o condutor se estica (aumenta L) e sua área transversal diminui (reduz A), resultando em um aumento da resistência R. A relação entre a variação relativa de resistência e a deformação mecânica é dada pelo fator de sensibilidade do sensor (K ou Gauge Factor).
3. Por que a Ponte de Wheatstone é indispensável na extensometria?
As variações de resistência elétrica produzidas por microdeformações são ordens de grandeza menores do que a resistência nominal do sensor. Medir diretamente essa variação com um multímetro comum é inviável.
A Ponte de Wheatstone é um circuito elétrico composto por quatro resistores organizados em dois ramos paralelos que funciona como um divisor de tensão. Ela transforma variações mínimas de resistência em variações mensuráveis de tensão elétrica, permitindo alta precisão e compensação de efeitos indesejados, como a dilatação térmica.
4. Quais são as principais configurações da Ponte de Wheatstone?
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¼ de Ponte: Utiliza um extensômetro ativo e três resistores fixos. É a configuração mais simples, indicada para medições diretas de tração ou compressão simples.
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½ Ponte: Emprega dois extensômetros ativos. Costuma ser aplicada em solicitações de flexão ou quando se deseja cancelar o efeito de cargas axiais e compensar variações de temperatura.
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Ponte Completa (Full Bridge): Utiliza quatro extensômetros ativos. Oferece a máxima sensibilidade do sinal, excelente imunidade a ruídos e neutralização de efeitos parasitários de temperatura ou torque/flexão combinados.
5. Quais critérios definem a escolha do extensômetro correto para um ensaio?
A seleção do sensor depende de múltiplos fatores operacionais e ambientais:
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Magnitude de deformação esperada: Define a faixa de medição e sensibilidade necessária;
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Temperatura de operação: Determina a necessidade de sensores autorcompensados termicamente;
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Geometria da superfície: Define o tamanho da grade (comprimento da pluma) e se será usado um sensor uniaxial, biaxial ou uma roseta triaxial;
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Ambiente de aplicação: Influencia a escolha do adesivo e da proteção superficial contra umidade, óleos ou intempéries.
6. Quando utilizar extensometria física versus Análise por Elementos Finitos (FEA/FEM)?
Ambas as técnicas são complementares na engenharia estrutural:
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Análise por Elementos Finitos (FEA): Ferramenta computacional ideal para as fases de projeto, simulação de múltiplos cenários de carga e identificação global de regiões de concentração de tensão.
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Extensometria: Ensaio experimental direto no ativo operacional. É indispensável para medir cargas reais de campo, validar modelos numéricos de FEA e monitorar a vida útil à fadiga de componentes críticos.
Referências:
[1] SILVA, Anderson Langone et al. A study of strain and deformation measurement using the Arduino microcontroller and strain gauges devices. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 41, n. 3, 2019.
[2] BIELEN, Paul; LOSSIE, Mieke; VANDEPITTE, Dirk. A low cost wireless multi-channel measurement system for strain gauges. In: Proceedings of ISMA. 2002. p. 663-670.
[3] BESTECH. UNDERSTANDING THE FUNDAMENTALS OF STRAIN GAUGE. 16-09-2019 Disponível em: https://www.bestech.com.au/blogs/strain/understanding-fundamentals-strain-gauge/. Acesso em: 3 de março. 2021
[4] ANDOLFATO, R. P., CAMACHO, J. S., de BRITO, G. A., Extensometria básica, (NEPAE UNESP, Ilha Solteira, 2004)


